Desde a proposta da União Europeia em proibir a venda de ovos em embalagens, que o mundo nos mini, super e hipermercados nunca mais foi o mesmo. Os ovos eram pesados, sem dó nem piedade, calculando-se as suas gramagens e categorizando-os como fatias de queijo em barra.
O ovo Inácio ainda estava no galinheiro e mal sabia qual era o seu destino... o cruel destino que o esperava! Na sua viagem para o hipermercado local foi colocado junto das pêras e limões, disposto lado-a-lado com dezenas de outros ovos. Ao seu lado estava Afonso, que achava muito bem este sinal de modernidade. Preferia estar ao ar-livre, pronto a ser escolhido e pesado, como se de um melão se tratasse.
Mais tímido e reservado, estava Leopoldo, que nunca tinha ouvido falar de tal coisa.
- Pesar ovos?! Isto vai acabar mal - pensava ele.
De repente, o hipermercado abriu as suas portas gigantes, e como abutres esfomeados entraram centenas de humanos. Apalpavam kiwis, mangas e bananas. Olhavam com desconfiança para os ovos...
- Onde estavam as embalagens de meia-dúzia? - pensava Ritinha, na inocência dos seus 8 anos.
Mas pouco tardou até que uma mão forte e peluda agarrasse Inácio. O seu aspecto saudável e limpo, ditou-lhe o destino: o primeiro ovo a ser posto num saco de plástico transparente.
Nem 10 segundos passaram até que Leopoldo foi atirado para cima dele...
O ovo Inácio começou a sentir um certo desconforto. Leopoldo era maior e mais pesado... Inácio não gostava do que sentia. E tudo piorou quando Afonso se juntou a eles.
Inácio sentiu um desconforto maior... o peso dos seus companheiros era demasiado para a sua fina casca suportar.
E juntou-se um, mais outro, e ainda outro. O saco totalizava agora 12 ovos. A típica dúzia estava amontoada num saco de plástico.
Inácio começou a sentir um sufoco, uma falta de ar inexplicável. Até que pressentiu algo frio por baixo de si.
- Onde estamos? - perguntou Inácio, assustado.
- Estamos a ser pesados. - respondeu rapidamente Afonso.
- Pesados?! - exclamou Inácio, começando a sentir algumas tonturas.
E rapidamente se ouviu um barulho ensurdecedor dentro do saco. Inácio começou a perder as forças rapidamente. Leopoldo gritou: "O Inácio partiu-se! Façam alguma coisa!!!".
Mas era tarde demais, não havia nada a fazer. Inácio já não tinha fala, nem poder de decisão. Era uma gema com clara... com pedaços de casca misturados.
Leopoldo começou a sentir uma massa viscosa a tocar-lhe... remeteu-se ao silêncio, rezando para si, para que nada de mal lhe acontecesse.
A história do ovo Inácio repetiu-se com tantos outros ovos... Humberto, Olvídio, Teodoro, nomes de ovos que pela sua beleza foram os primeiros a ser escolhidos e que inevitavelmente tiveram de suportar o peso de todos os outros, acabando a sua história numa mistura inconsumível para o Homem.
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