
A pastelaria Real era a mais promissora casa de bolos e doçarias da região de Albufeira. Alojada numa sala de baile restaurada, de um antigo palacete do séc. XVIII, a requintada loja confeccionava e vendia de tudo, desde os famosos Dom Rodrigos, aos pequenos Morgadinhos, passando pelas deliciosas Tortas de Amêndoa até aos não menos divinais Lampreias de Ovos. No entanto, o ex-libris da pastelaria do senhor João eram mesmo as Bolas de Berlim com creme. Vinha gente de todo o país para provar os súbditos daquela deliciosa corte.
Carlota Joaquina era a rainha do pedaço... a mais glamorosa e perfeita Bola de Berlim que o senhor João confeccionou em muitos anos de profissão: a sua pele, coberta por finos cristais adocicados, era fofa como se de uma almofada de penas de pavão se tratasse; E na cabeça usava uma coroa amarelada, que de tão brilhante ofuscava os olhos dos humanos que a olhavam sedentos de calorias.
Da fresca fornada que saiu bem cedo, Carlota Joaquina deu à luz 9 lindos rebentos: Maria Teresa, Francisco António, Maria Isabel, Pedro, Maria Francisca, Isabel Maria, Miguel, Maria da Assunção e Ana de Jesus. Tinham todos a cara da mãe... pele doce e cabelos louros, felizmente.
No entanto, naquela manhã quente de Julho, a ideia do senhor João não era vender aquela famelga toda na montra da loja. Tinha já um tabuleiro feito do mais fino plástico para albergar sua majestade e as pequenas crias. O destino era a Praia do Castelo... venda ambulante!
Carlota Joaquina estava amontoada com as suas 9 crias num tabuleiro que não conhecia. Não era nada confortável, estava escuro e o raios de sol entravam sorrateiramente pela fina toalha de linho que cobria o soluçante transporte real.
Porém, a viagem trazia mais surpresas, desagradáveis por sinal: os cabelos louros de Maria da Assunção e Ana de Jesus começavam a escorrer para cima de Carlota Joaquina e os cristais açucarados de Pedro e Miguel começavam a pegar-se uns aos outros.
Até que uma voz máscula se ouviu do exterior do tabuleiro. Os soluços pararam. A toalha de linho que cobria a família real saltou fora…
Estava agora a descoberto a triste realidade: Maria da Assunção e Ana de Jesus tinham sufocado de tanto calor e Pedro e Miguel estavam tão juntinos, que espátula nenhuma os separava. Carlota Joaquina esvaiu-se em creme. "Que descraça!" - chorava ela.
Porém, o pior ainda estava para vir. Uma mão peluda e suada pegou na "Rainha das Bolas" e a olhar para quem transportava o tabuleiro disse: "o senhor não pode vender isto aqui". "Isto?!" - pensou Carlota. "Isto é só o bolo mais famoso da pastelaria Real. De quem é que este badameco pensa que está a falar?" - exclamou. Mas Carlota nem teve tempo para dizer mais nada… o homem da mão peluda e suada trincou a cabeça de sua majestade a "Rainha das Bolas". "Tinha de provar, antes de o autuar" - disse o homem, a quem transportava o tabuleiro real.
Quem seria aquele cruel assassino, que sem piedade trincou a promissora Carlota Joaquina? A mando de quêm? E porquê tanto ódio às Bolas de Berlim com creme? Antes da trinca fatal, Carlota Joaquina ainda teve tempo de vislumbrar uma placa no seu peito do homem. Estava identificado: "Zezé Boaparte", ASAE.
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