terça-feira, 6 de julho de 2010

Como ser um Nabo - Cap. II: Emprego para Tapa-buracos

O estreito corredor que dava acesso ao gabinete da directora-geral da 1+1=3 estava decorado, do lado direito da parede, com cartazes impressos dos mais importantes trabalhos realizados pela empresa e, do lado esquerdo, com fotografias informais da actual equipa de colaboradores. O prestígio da empresa e a união entre colegas agradaram a Carlos, que, à medida que ia andando, se tentava abstrair do momento do primeiro encontro com Angélica Anunciação.

Eram 8h37 e ainda não estava ninguém no seu posto de trabalho, para além da "chefona" e da secretária, é claro. Os passos de Angélica e Carlos ecoavam no silêncio do corredor de acesso ao gabinete da chefe. Com os estores ainda fechados e apenas uma das luzes do tecto acesas, o cenário simulava, sem sombra de dúvidas, o corredor de uma casa assombrada. Se Angélica, que seguia à frente, de repente se virasse para trás, Carlos apanharia, com certeza, um dos maiores cagaços da sua vida.

Chegaram...
A entrada do gabinete de Angélica mais parecia uma homenagem à porta do castelo do Conde Drácula. Velha e meio maltrada, parecia não querer abrir, tais eram os empurrões sucessivos que a directora-geral da 1+1=3 dava na madeira escura e forte. No entanto, como que por magia, abriu-se no preciso momento em que Angélica tinha parado de empurrar. Mistério ou não, deixou Carlos a pensar: "Será que a gaja é bruxa, ou quê?!".

Angélica deu licença a Carlos para entrar no seu gabinete primeiro que ela própria. Uma cortesia que fazia sempre questão de ter com os seu convidados.
Fechou a porta. O rangido foi tal que fez Carlos olhar para a sua barriga. Não queria acreditar que pudessem ser gases… tinha tomado Activia, o milagre da medicina iogurteira. E se até com Fátima Lopes resultava, tinha de resultar com ele num momento crucial daqueles.
- Foi só a porta. - exclamou Angélica, reparando no ar de aflição de Carlos, que corou da cabeça aos pés.

Estavam agora os dois sentados frente-a-frente, olhos nos olhos - azul cien com "vermelho conjuntivite".
Angélica fez as honras e começou por apresentar aquela que poderia vir a ser a 2ª casa de Carlos:
- Tal como lhe disse por telefone, a 1+1=3 é uma empresa que "vai a todas". Decidimos não nos especializar, porque gostamos de fazer tudo. O nosso objectivo é deixar os nossos clientes totalmente satisfeitos, independentemente daquilo que nos peçam ser uma limpeza a retretes ou construção um site; organização de eventos ou servir canapés na inauguração de uma nova tasca. Não somos esquisitos! - explicou Angélica.

Carlos estava incrédulo, boquiaberto... não queria acreditar no que acabara de ouvir! "O que é que era aquilo?" - pensou ele. No entanto, como não estava em época de recusar o que quer que fosse, sorriu de forma irónica.
De seguida, Angélica fez-lhe as perguntas da praxe: "Descreva-me o seu percurso académico e a sua experiência profissional". Carlos não tinha muito para dizer... tinha-se formado há pouco tempo e a sua inexperiência estava bem patente na única página de currículo.

No entanto, apenas 1 minuto de conversa serviu para Angélica exclamar: "está contratado!".
- Deve saber lavar casas de banho nas horas vagas e isso chega-me. - disse a directora-geral da 1+1=3, abrindo ainda mais os seus olhos "vermelhos conjuntivite".

Carlos não queria acreditar. Ao fim de 6 meses tinha um emprego. Não era bem o que estava à espera, mas era melhor que nada. E como o dinheiro lhe fazia falta, era impossível dizer que não. O "Nabo" apenas perguntou a Angélica quais as condições contratuais.
- Ora bem, penso que o melhor para si serão os nossos Recibos Pretos, permitindo a ambas as partes uma maior flexibilidade. Quanto a remuneração e dado que faz tudo, penso que o ordenado mínimo é justo. E conforme o seu desempenho no próximo ano, quem sabe não o aumento para os 500 euros. - disse Angélica.

Carlos não tivera reacção, pois ainda era cedo para assimilar tudo.
- Sortudo, hein! - exclamou Angélica. Sou uma pessoa muito humana e justa. Vai gostar de trabalhar comigo e com o resto da equipa.
- De certeza que sim! - disse Carlos, com cara de parvo, apertando firmemente a mão da directora-geral da 1+1=3, como que a selar o acordo.
- Então apresente-se amanhã, às 9h00 em ponto, para começar a trabalhar. - ordenou Angélica, com um sorriso nos lábios, como que a mandar uma piadola.

Mas para o "Nabo", era tudo menos uma piada. A partir de agora a sua vida ia mesmo mudar. Despediu-se da sua nova chefe e saiu com o "rabinho entre as pernas" pelo corredor fantasma em direcção à loura boazonha.
- Então amanhã cá nos vemos, cara colega - disse Carlos, piscando-lhe o olho.

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