domingo, 4 de julho de 2010

Como ser um Nabo - Cap. I: O diabo veste Caca

Abril tinha chegado ao fim. Duas semanas de chuvadas intermináveis supostamente dariam lugar a um dia solarengo. De acordo com Violeta dos Campos, do Instituto de Meteorologia, era esperado céu limpo, vento moderado de nordeste e 25º de temperatura máxima. No entanto, a manhã tinha acordado com nevoeiro denso, que não fazia vislumbrar "alminha" na Praceta General Nabais Sem Medo.

Era segunda-feira e, para um dia de trabalho, mais parecia feriado nacional. Todos os estores da praceta estavam fechados, excepto os do 1º esquerdo, do lote 25. A janela estava escancaradamente aberta e o frio da neblina matinal inundava o quarto do inquilino do T1 mais pequeno do prédio.

Seria uma manhã como tantas outras para Carlos Macho, o "Nabo", como era carinhosamente chamado pelos amigos mais próximos, não fosse o despertador tocar às 8h00. Para este licenciado, desempregado, de 25 anos, esta era uma data especial.
No dia anterior tinha recebido um telefonema que parecia vindo do céu. Pela primeira vez em 6 meses, Carlos tinha sido chamado para uma entrevista de emprego. Do outro lado do seu semi-partido Nokia 1610, uma voz feminina tinha marcado um "encontro" para as 8h30, nas instalações de uma empresa, que, com o entusiasmo, não percebera o nome. Tinha apenas rabiscado num post-it: "Cruzamento da Avenida da Liberdade com a Soares dos Reis".
- Lá estarei! - disse Carlos, com firmeza, à voz fininha que tinha interrompido "As Tardes da Júlia".

Eram 8h01 e o "Nabo" tinha acabado de carregar no botão para calar o barulho ensurdecedor do despertador que ficava mesmo ao lado do seu ouvido direito. Ainda meio ensonado olhou para o relógio e reparou que faltavam precisamente 29 minutos para o tão esperado momento. Carlos vivia a 30 quilómetros do local marcado pela "voz do além" e, para além de atordoado, estava visivelmente atrasado.

Muito à pressa e atrapalhado, levantou-se, tomou duche, fez a barba, pôs after shave e desodorizante, lavou os dentes, vestiu o seu melhor fato, calçou os seus melhor sapatos e colocou o seu melhor perfume - "Pátcholi", by Doce Cabana. Eram 8h14 e o "Nabo" estava aparentemente impecável para sair de casa.

A correr pelas escadas abaixo, levava na mão direita a chave do seu Fiat Panda roxo, que, com uma carrada de anos, comprou ao seu bisavô por 50 euros, assim que tirou a carta de condução. Na outra, levava um Activia liquido - sofria de barriga inchada e gases, pelo que não podia correr o risco de se descuidar e causar má impressão num momento tão raro como o que se aproximava.

A manhã nublada dava lugar aos primeiros raios de sol, abrindo caminho a um final feliz para a entrevista do "Nabo". O caminho era longo, mas mesmo assim meteu firmemente as mãos ao volante e fez do seu velhinho Fiat Panda um potente Porshe Carrera - ia claramente acima do legalmente permitido pelo Código da Estrada, mas estava-se a borrifar. Tinha de chegar a todo o custo, sem atrasos, ao cruzamento da Avenida da Liberdade com a Soares dos Reis.

Carlos fez da sua viagem pela Via do Elefante um tormento para os outros utentes. Preferiam dar-lhe passagem a ter de suportar mais um minuto do barulho ensurdecedor do seu escape, que mais fazia lembrar o roncar de um Panda. Era, definitivamente, uma situação peculiar: Carlos imaginava possuir o cajado de Moisés nas mãos, já que abria um mar de carros vermelhos à sua frente.

Eram 8h31 quando Carlos estacionou o seu "bólide", ano de "troca-o-passo", em frente à porta do edifício espelhado do cruzamento da Avenida da Liberdade com a Soares dos Reis. Ficou maravilhado a contemplar aquele mamarracho que se destacava das restantes casas da zona.
- É surpreendentemente... como dizer, grande! - exclamou ele, embasbacado.
Parecia que tinha chegado finalmente ao céu e não via hora de falar com a "voz do além" que o tinha chamado ali.

Subiu até ao 5º andar e à sua frente tinha uma rapariga loura, que, com um ar de prostituta do "Elefante Azul", lhe perguntou: "Bem-vindo à 1+1=3, em que lhe posso ser útil?".
Carlos pensou em responder-lhe à letra: "Eras bastante útil logo à noite no meu quarto", mas tentou abstrair-se das qualidades da moça, imaginando como seria fisicamente a sua futura musa, a "voz do além" por detrás do seu semi-partido Nokia 1610.
- Olá! Chamo-me Carlos Macho e venho para uma entrevista. - exclamou.
- Vou agora mesmo chamar a doutora. Ela está à sua espera. - disse a louraça, que ao sair do seu lugar, deixou vislumbrar a sua bruta mini-saia. Voltou passado 5 minutos e com ela vinha uma senhora que mais parecia uma visão do inferno. Carlos olhou várias vezes antes de estender a mão e cumprimentar quem imaginava ser a salvadora dos últimos meses de tédio em casa à procura de emprego.

Era uma mulher que aparentava uns 64 anos, mais coisa menos coisa. O seu cabelo mais parecia uma capacete azul da ONU. Ostentava carradas e carradas de laca, cujo cheiro, muito perto, se tornava insuportável. Vestia um deselegante saco de batatas castanho, tele-transportado directamente dos Loucos Anos 20. Os sapatos, de acabamento em bico, marca Caca, estavam medonhamente a condizer com a toillete. Na cabeça, Carlos reparou que tinha um gancho com o desenho de um boneco que só lhe fazia lembrar uma poia de um cão no meio da rua. A cara ostentava idade: muitas rugas por entre um nariz de bruxa de Oz e uns olhos, que para além de parecerem saltar-lhe da cara, estavam vermelhos de uma conjuntivite que tinha em cada olho. Para finalizar, a cereja no topo do bolo... no peito trazia um broche encarnado com um tridente, que dizia em letras brancas, "God wouldn't recognize me".

Carlos estava meio aparvalhado e estupefacto a olhar para aquela personagem que surgiu à sua frente. Nunca pensou que a "voz fininha do além", por detrás do seu semi-partido Nokia 1610, pudesse ser assim. No entanto, o "Nabo" acreditava que não era o aspecto das pessoas que interessava. O interior da mulher que estava parada à sua frente deveria ser muito mais apetecível do que aquilo que os seus olhos vislumbravam naquele momento.

- Olá! O meu nome é Angélica Anunciação. Sou a directora-geral da 1+1=3. Venha comigo, vamos para o meu gabinete. - disse simpaticamente, na sua voz fininha, depois de apertar firmemente a mão do "Nabo", que continuava em choque.
No entanto, Carlos seguiu-a. Pensou que pior do que a situação de desemprego em que estava, não passaria de certeza e que aquela oportunidade poderia dar lugar a uma mudança na sua vida sem precedentes.

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