Primavera de 2024...
O tão temido e anunciado Apocalipse não chegara e por isso os humanóides continuavam a viver as suas vidas num total desmazelo e desrespeito pelo meio ambiente.
Bernardo vivia num T4, numa das zonas mais chiques de Lisboa: Camarate. Rodeado por belos relvados sintéticos, o seu apartamento, em condomínio fechado, era espaçoso e luxuoso... o topo de gama dos apartamentos citadinos.
No complexo que partilhava com outros 39 apartamentos encontrava-se o El Corte Francês, centro comercial elitista para a nata mais rica e importante da sociedade.
Não havia um só dia em que Bernardo não laureasse a pevide nessa superfície, sempre atento às novidades tecnológicas na área da moda e até alimentar.
Bernardo consumia água H2O Deluxe, onde no rótulo podia ler-se: "Origin: New Zeland".
"Pure water", uma singela garrafa de vidro de 800 ml, onde eram cravados diamantes Swarovski, custava apenas 9,45€. Dava ao frigorífico de Bernardo um ar muito mais glamoroso!
Bernardo não cozinhava, diariamente almoçava no restaurante de Fast Food Gourmet, junto ao Pavilhão de Portugal, no Parque das Nações. À noite passava pelo Sopas Gourmet, onde se deleitava com a sua sopa favorita: "Bróculos aux Champignon".
As únicas torneiras abertas no T4 de Bernardo eram as da casa-de-banho. Ora no banho, ora no fabuloso lava-mãos em vidro sintético que encomendara de Angola.
A água da torneira era menosprezada por Bernardo, Martim, Madalena e tantos outros moradores do luxuoso complexo de Camarate. Para eles, água da torneira era sinónimo de água comum, sem propriedades medicinais, curativas e, pior que tudo, sinal de pobreza.
O que todos desconheciam é que ao beber H2O Deluxe não estavam mais do que a consumir água da torneira engarrafada por Peter Steinberg, um jovem neozelandês, que vira no mercado português uma grande fonte de rendimento.
Assim, em 2032 e já com uma grande desvalorização das águas da rede pública nacional, Peter Steinberg torna-se um dos homens mais ricos do mundo, pela sua visão investidora e atitude irreverente. Para conseguir dar resposta à tremenda procura do mercado português, contratara jovens ucranianos, que viajando para a Nova Zelândia, ganhavam o equivalente a 4€ por cada garrafa enchida na torneira do parque de campismo local.
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