
Afinal o mito era bem real: os ciganos existiam! Bella estava boquiaberta com tamanha revelação. Esperava tudo: vampiro, lobisomem, frankenstein, duende, qualquer coisa... menos cigano! Pensava que criaturas como aquelas só existiam nos filmes. Contudo, ali estava um representante da espécie, bem diante dos seus olhos, em carne e osso... a prova de que a realidade supera a ficção.
No entanto, apesar da revelação e de todas as ameaças do rapaz, Bella estava aparentemente calma. O medo que sentira, há minutos atrás, estava aos poucos a desaparecer. É que depois de contar o segredo, o rapaz adoptou uma expressão muito mais dócil e simpática. Parecia que tinha tirado um peso dos ombros. Por isso, havia agora margem de manobra para uma interacção bem mais calorosa entre os dois.
- "O meu nome é Edward. Na universidade ouvi chamarem-te Bella." - disse o rapaz, esticando a mão. A jovem respondeu ao cumprimento.
- "E não tens medo de mim?" - perguntou o rapaz.
- "Se até agora não me limpaste, já não o vais fazer." - advertiu Bella.
- "Tens razão. Apesar de vontade não me faltar, há qualquer coisa em ti que me não me deixa avançar." - explicou Edward.
Foi naquele preciso momento que a situação se alterou por completo. A neblina que habitualmente cobria a Mata de Garfos acabou por se dissipar, como que por magia, dando lugar a uns tímidos raios de sol, que por entre as árvores faziam um incrível efeito, quais rasgos de luz por entre a escuridão. Mas para além do cenário, algo mais se tinha alterado. Bella olhava agora para Edward de uma maneira estranha, como que a reparar em pormenores que lhe tinham escapado inicialmente. É que o sol tinha um efeito trágico na espécie: revelava as verdadeiras características dos ciganos, escondidas anteriormente pela neblina: a pele de Edward, que há segundos atrás era morena, mas bastante limpinha, mostrava agora placas grossas de sujidade, como se não fosse lavada há pelo menos 500 anos, no mínimo. Por detrás do pescoço então, era um exagero; a unha do dedo mindinho, da mão direita, tinha o tamanho do dedo indicador. De acordo com o mito, servia para limpar sujidade em locais inóspitos e de difícil acesso; a camisa, aberta até ao terceiro botão, para além de mostrar uma quantidade infindável de fios, mostrava agora uma carpete de penugem, que mais parecia o matagal do Pinhal de Leiria, mas em preto; na cara, uma barba mal semeada cobria-lhe o rosto; e o cheiro, que anteriormente era agradavelmente suave, agora não se suportava. Quaisquer semelhanças com um macho latino acabado de sair do ginásio, sem tomar banho, é pura coincidência.
O contacto com o sol parece ser de facto o calcanhar de Aquiles de muita gente. Mas enquanto uns brilham, outros sujam-se. São ambas formas justas de mostrar o seu verdadeiro Eu, no entanto, uma é mais agradável que outra.
Mas se a revelação de que Edward era cigano surpreendeu Bella, a transformação aos raios de sol deixou-a de queixo caído. E ela, que até era uma rapariga difícil de surpreender. Mas de facto, de um momento para o outro, o príncipe virou sapo.
- "Agora vês como realmente sou. É da luz do sol..." - esclareceu Edward.
- "Cada um é como é... não será isso que me afastará de ti." - exclamou Bella, apesar da sua cabeça dizer precisamente o contrário.
Foi o que Edward precisou de ouvir para pegar a jovem nos braços e leva-la até um pequeno descampado, que se destacava do arvoredo que os rodeava. Deitaram-se no chão, um ao lado do outro, e apesar da cara de enjoada de Bella, deram as mãos... a medo.
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