
Mais um dia de trabalho que parecia chegar ao fim. Carlos entrou às 9h00, como habitualmente, e às 17h55 tinha dado por concluídas, de forma eficiente, todas as tarefas que lhe tinham sido atribuídas. Habitualmente, o Nabo fazia largos serões na 1+1=3, pagos pela patroa com um prémio a que o nariz e as mãos de Carlos não ficavam indiferentes. - "Não se esqueça de limpar a casa de banho antes de sair?" - ordenava Angela Anunciação, com um sorriso maléfico nos lábios. Mas na cabeça do Nabo, esta quarta-feira ia ser diferente: Carlos tinha o 50º aniversário do pai, um acontecimento único, a que o jovem não podia faltar. No dia anterior tinha inclusive avisado a big boss das suas intenções de sair, excepcionalmente, a horas. Sim, porque o seu horário de trabalho variava consoante o humor da patroa.
Eram 18h00 em ponto quando o Nabo começou a arrumar a secretária. É que um Tapa-buracos, nobre categoria profissional estipulada em contracto, com tanta coisa para fazer ao longo do dia, era natural que a sua mesa mais parecesse um campo de batalha.
Carlos preparava-se para desligar o monitor do computador, quando um beep saiu pelas colunas de som do "bicho". O Nabo abriu a pequena janela que saltitou do canto inferior direito do ecrã e leu: "Nova mensagem. Carlos, preciso que idealize, ainda hoje, um banquete para a festa de 25 anos de casada da minha tia Serafina. Ass: Angela Anunciação.". Carlos não queria acreditar. Parece que Angela tinha feito ouvidos mocos dos planos do Nabo para aquele dia. Mas o jovem estava há pouco tempo na empresa e o fantasma do desemprego ainda pairava sobre a cabeça do mais bem pago da 1+1=3. Por isso, colocou mãos à obra:
Pensou num banquete Assado: "E se o pernil ficar seco, põe o quê... Halibut?!" - questionou Angela.
E continuou...
(...) Cozido: "Comida de doentes?! Nem pense!!!"
(...) Frito: "Para isso bebemos garrafas de óleo Fula de penalty. Tem o mesmo efeito!"
(...) Guisado: "Faz-me lembrar o banquete de inauguração da Ponte Vasco da Gama. Odeio gente pobre!!!"
(...) Grelhado: "Olha que um churrasco na piscina não era mau pensado. Mas dão chuva nos próximos dias." - disse Angela. "Que bela desculpa..." - pensou Carlos, já que estavam em pleno mês de Agosto.
(...) Doce: "Não, que a minha tia tem diabetes."
(...) Salgado: "Não, que minha tia sofre de colesterol alto."
(...) Saudável: "Tenho ar de vaca, por acaso?" - gritou Angela. Carlos esteve prestes a dizer que sim...
(...) Abafado: "Que quer dizer com isso exactamente? Uma maçã à frente e um limão atrás? A minha tia é Católica, não vai nessas modernices.
(...) Estorricado: "Só pode estar a gozar!" - exclamou Angela, insatisfeita.
Carlos já não sabia mais por onde pegar. Angela tinha rejeitado todas as suas ideias. E com isso, já lá iam mais umas horas de expediente. O Nabo já não ia assistir, com toda a certeza, ao início do aniversário do pai. No entanto, voltou-se a ouvir um beep do computador de Carlos. Tinha chegado um novo email. Dizia: "Nova mensagem. Carlos, já não preciso de si. Idealizei eu própria um banquete para a minha tia Serafina. Será Grelhado!!! Não sei como não teve esta brilhante ideia antes. Ah... e não se esqueça de limpar a casa de banho antes de sair. Ass. Angela Anunciação.". Boquiaberto, Carlos estava ainda mais parvo do que quando a big boss despediu Ana. A ideia tinha sido sua... só podia estar a gozar com a sua cara.
Carlos chegou 2 horas atrasado ao aniversário do pai. Já nem tivera tempo de ir a casa. E para além de furioso, o Nabo tinha, digamos que... um odor estranho. "É o cheiro do trabalho!" - disse-lhe simpaticamente o pai.
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